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Guia de samambaias

Cada um tem um jeito de tentar agradar e ser presenteado com toda a exuberância dessas plantas. Cercadas de cuidados quase “místicos”, as samambaias, ou pelo menos quem costumamos chamar assim, são um clássico.

SOMOS TODAS SAMAMBAIAS

No dia a dia, pouca gente imagina que elas sejam um grupo muito maior. Quem diria, por exemplo, que asplênios, avencas, rendas, chifre-de-veado e trevo-de-quatro-folhas também são consideradas samambaias? Todas elas fazem parte de um conjunto composto por várias famílias, as pteridófitas.

DA ÁGUA PARA A TERRA

Na escala evolutiva, as pteridófitas participaram da transição entre a água e a terra. Guerreiras, foram as primeiras a terem tecidos de sustentação e vasos condutores, o que permitiu alimentar com rapidez toda a sua estrutura, garantindo um porte maior do que o dos musgos, seus antepassados do grupo das briófitas.

Entender as condições do ambiente naquele período te dá pistas sobre o comportamento dessas plantas. Afinal, as espécies de hoje são descendentes das que apareceram por aqui há mais de 350 milhões de anos.

Localizados debaixo das folhas, os soros guardam os esporos, fundamentais para a reprodução das pteridófitas ao longo dos tempos.

As pteridófitas encontraram a Terra repleta de água. Foi por meio dela que conseguiram garantir a continuidade das espécies ao longo dos tempos: como não possuem sementes, o que significa que não é possível plantar uma samambaia a partir destas estruturas, os membros dessas famílias dependeram da reprodução sexuada, por meio dos esporos.

Estes pequenos pontos marrons debaixo das folhas guardam células parecidas com o espermatozoide e o óvulo. Quando a masculina nada até a feminina para se unirem, uma nova planta está a caminho. Para que esse encontro possa acontecer, é fundamental a presença de umidade.

NO DIA A DIA DA SUA MORADORA

As condições ideais do ambiente são importantes não apenas para a reprodução na natureza. Também são decisivas no dia a dia das espécies que moram na sua selvvva.

Habituadas ao clima úmido há milhares de anos, as pteridófitas adotaram uma estratégia para sobreviver: ao primeiro sinal de falta de água, se libertam de tudo o que possa representar perda de energia. Nesse caso, fazer fotossíntese deixa de ser prioridade, e manter a folhagem passa a ser um luxo. Mas não é só esse verde que precisa de hidratação constante.

Fique sempre de olho nas espécies que têm o rizoma aparente. Este caule coberto de pelos é importante para a fixação da planta e a captação da umidade do ar. Quando percebe que essa região está seca, a sua samambaia pode entender que vai faltar água para abastecer as folhas, abortando cada uma delas.

Deixar a sua planta protegida do vento e do sol também é fundamental. As primeiras habitantes do planeta eram rasteiras, viviam em ambientes escuros e não aprenderam a lidar com a desidratação. Ficar exposta às correntes de ar e à luz direta e intensa são outras condições que vão levar a sua moradora a perder folhas.

Esses comportamentos valem para todas as pteridófitas. Isso não significa que não possa ter por aí uma samambaia adaptada ao sol pleno, ao vento e até a um período curto de estiagem. Toda regra pode ter sua exceção. Mas conhecer cada uma delas te ajuda na hora dos cuidados.

Assim, da próxima vez em que ficar na dúvida sobre como lidar com o seu asplênio, avenca ou chifre-de-veado, por exemplo, basta lembrar que eles seguem características comuns ao grupo.

DESCUBRA O SUBSTRATO IDEAL PARA A SUA PLANTA

Para saber se a sua samambaia precisa ser plantada na terra ou se vai bem agarrada nas árvores, é importante conhecer como ela vive na natureza. Dessa forma você consegue oferecer condições parecidas na hora de cultivá-la em casa.

O chifre-de-veado e a samambaia-amazônica, por exemplo, são epífitas: crescem agarrados aos troncos e pedras, usando essas superfícies como apoio para garantir sua proteção e ganhar alguns centímetros de altura. Afinal, quanto mais afastados do solo, mais longe dos predadores e perto da luz. Tudo sem retirar nutrientes da planta parceira. Cultivar essas espécies na terra pode levar ao sufocamento das raízes. Por isso, uma boa alternativa para imitar o substrato delas na natureza é usar chips de coco, casca de pinus ou casca de arroz, ideais para controlar a umidade e garantir a oxigenação.

O asplênio é outra planta que se comporta como epífita, mas também pode ser cultivado na terra.

Em geral, as espécies que vão bem na terra têm o rizoma subterrâneo. Já as epífitas ou rupícolas – que nascem nas calçadas – possuem rizoma aparente.

As folhas das pteridófitas, tecnicamente chamadas de frondes, são as únicas a nascerem enroladinhas. Esse formato é uma das características que une essas famílias, com espécies que vão do trevo-de-quatro-folhas à samambaia.

QUEM É QUEM

As pteridófitas abraçam várias famílias de plantas. Todas as que listamos abaixo são consideradas samambaias.

Aspleniaceae: os asplênios fazem parte desse grupo.

Polypodiaceae e Pteridaceae: essas famílias agrupam as espécies que são mais conhecidas como samambaia, entre elas samambaia-amazônica, samambaia-americana, samambaia-de-calçada, além das avencas e chifre-de-veado.

Marsileaceae: reúne espécies aquáticas, como o trevo-de-quatro-folhas. Esta planta também está presente entre as Oxalidaceae, família de trevos e flores que não são considerados samambaias.

Dicksoniaceae: é a família da samambaiaçu. Popularmente conhecida como xaxim, essa samambaia gigante, com porte de até cerca de 8m de altura, é nativa da Mata Atlântica. Seu caule fibroso chamou atenção como substrato com as condições ideais para o cultivo de algumas espécies epífitas. O extrativismo para a fabricação de vasos levou essa planta pré-histórica a ser ameaçada de extinção. Desde 1990 sua exploração e comercialização passaram a ser consideradas crime.


Conteúdo criado com a colaboração de Anderson Santos, biólogo e botânico da Escola de Botânica, que compartilha o conhecimento científico sobre as plantas de um jeito acessível e simplificado nos seus cursos.